quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Entreletra: SONIA BISCHAIN


Nascida e criada na Vila Brasilândia e arredores, Sonia Bischain desde muito cedo pegou gosto pela leitura, influenciada pelo pai sindicalista que, bem informado, exibia sempre seus jornais pela casa. Viciou-se, e na adolescência era chamada pelos amigos de  “maquininha de ler livros”. Aos 15 anos, em um grupo da igreja católica, conheceu a “Teologia da Libertação”, iniciando sua atuação social que, aliás, sempre fez parte de sua história de lutas. Anistia, volta dos exilados, fim da censura, da ditadura e das torturas, “diretas já” e criação de um partido do povo trabalhador, fizeram parte da sua agenda política que, como se vê, caminha paralelamente a da redemocratização do país. Sempre atuante com entidades filantrópicas na região, ajudou também a criar o Partido dos Trabalhadores na Brasilândia e Freguesia do Ó. Mãe do Fernando, da Flavia e do Yan, pegou gosto pela escrita e  pela arte de editar, pintar e desenhar. Em 1996 se voltou à fotografia e de lá pra cá também não parou mais de registrar seu olhar atrás da lente. Sempre incentivando a leitura aos “meninos da Brasa”, como diz, foi surpreendida ao ser convidada pelos mesmos para participar do Sarau da Brasa nos idos de 2008. O sarau cresceu, fortificou-se, publicou quatro antologias próprias ao longo desses anos e a ajudou a lançar seus dois primeiros livros: poesia (em conjunto com Bárbara Lopes) e um romance. Seu terceiro livro, e segundo romance, “Vale dos Atalhos” foi lançado em 2013 pela editora Sundermann. E sobre ele, e sobre tudo, é que se deu este nosso belo bate-papo textual.


ENTRELETRA: 

Seu pai parece ser uma figura marcante em sua vida. Fale dele, dos espelhos.

R: Meu pai é uma pessoa com um forte senso ético e moral, de uma dignidade e honestidade enraizadas que florescem em sua conduta ao longo dos seus 82 anos. É alegre, encanta qualquer conversa com suas histórias e seu jeito animado de encarar a vida e reproduzir os fatos por ele vivenciados, ao mesmo tempo é paciente, calmo, observador. Gosto de salientar que ele também é um bom ouvinte. Filho de espanhóis (talvez por isso seu interesse em política), que vieram ao Brasil fugindo da 1ª guerra mundial. De família muito pobre, perdeu o pai onze dias após seu nascimento, estudou somente o antigo curso primário (ou seja, 4 anos), seu interesse pela leitura o tornou um autodidata.

Na época da ditadura você chegou a sofrer (ou presenciar) abusos de violência policial? Fale dessas lembranças.

R: Bem, acho que a primeira violência que vi, eu devia ter uns 7 anos, foi uma execução, em frente de casa. Ali tinha um descampado onde as crianças jogavam futebol entre outras brincadeiras, e depois do descampado tinha um brejo com taboas. Chegou um carro com policiais e um homem. Gritaram para o homem correr e quando ele obedeceu os policiais atiraram, o homem caiu no brejo em meio às taboas. Os policiais não me viram. Algum tempo depois presenciei mais uma cena idêntica. Você ouviu dizer que a Brasilândia foi um local de desova humana durante a ditadura? Pois foi, acontecia de corpos serem encontrados nos rios e riachos da Brasilândia, essa violência era contra presos políticos e comuns (no caso dos presos comuns era praticada pelo esquadrão da morte).

Em 1976/77, recomeçaram as manifestações de rua, organizadas primeiro por estudantes, depois por outras categorias também. Eu sempre participava das manifestações (estudantes, bancários, professores, metalúrgicos), me lembro de uma de padeiros, que achei muito original, eles saíram de avental e chapéu de mestre-cuca, pelo centro de São Paulo; as pessoas nos prédios jogavam papéis picados para saudá-los) e logo vinha a repressão, com suas bombas, cassetetes, cavalos, cães. Não muito diferente do que tem acontecido nas manifestações hoje em dia. Já fiquei "cercada" dentro da PUC e na igreja da Sé. Também já presenciei "infiltrados" provocando brigas e quebra-quebra para dar a deixa pros policiais agirem contra nós. Apareciam uns caras de barba e jeans (para se parecerem com os manifestantes, mas eram pessoas que nunca tínhamos visto antes) e tumultuavam os atos. Nos anos 80 (quando Maluf era governador) começaram a aparecer uns caras estranhos (a gente chamava de trombadões) e quebravam as vitrines das lojas no Centro Velho. Ali era complicado, pois as ruas são estreitas e não tinha muito por onde fugir. Um grande amigo meu foi preso algumas vezes por participar de greves, ele era bancário. A gente tinha um esquema: todos os dias ele me telefonava (no meu serviço, a gente não tinha telefone em casa) num determinado horário, se ele não me ligasse eu já acionava D. Paulo e seus advogados, pois certamente meu amigo estaria preso.

Teve uma época em que eu era seguida em todos os lugares aonde ia por 2 agentes do DOPS, acredito que era mais intimidação, pois muitas vezes eles faziam questão de que eu percebesse que estavam me seguindo. Eles foram algumas vezes onde eu trabalhava, em horário que eu estava almoçando, e faziam perguntas sobre mim às pessoas que trabalhavam comigo, em uma ocasião procuraram minha família, e amedrontaram minha mãe, nesse dia, quando cheguei do trabalho, minha mãe estava fazendo uma grande fogueira com todos os papéis que eu guardava: jornais tipo Pasquim e Movimento, poesias que escrevi, folhetos, panfletos, boletins que eu editava sobre o bairro, etc.
Também no evento que ficou conhecido mundialmente como "Pancadaria do Ó" (deu nos jornais internacionais também), o povo da Freguesia (a maioria eram moradores da Brasilândia: Jd. Carumbé, Vista Alegre, Damasceno, Penteado, Jd. Guarani, Terezinha) apanhou de policiais à paisana. Era o Governo Itinerante do Paulo Maluf. A população se organizou em comissões para fazer suas reivindicações, como creche, pronto-socorro, hospital, posto de saúde) e foi recebida a cassetetes, soco-inglês, pauladas. Na ocasião, fiz uma faixa onde se lia: "Olhe nossas/vossas favelas" — o evento ia acontecer no Largo do Clipper, fomos de ônibus até o local —, e ao descer do ônibus, os agentes da repressão, tomavam as nossas faixas e nos batiam com o pau de nossas próprias faixas. Exigimos uma CPI para apurar as agressões e o fato ficou mundialmente conhecido. Com nossa mobilização, conquistamos o Pronto-Socorro, na av. João Paulo I, a Creche e o Posto de Saúde na Vila Penteado. O Pronto-Socorro ganhou o nome de 21 de junho (dia da pancadaria), o fato ocorreu em 1980, hoje na placa em frente, se lê "Pronto-Socorro Freguesia do Ó", parece que censuraram o nome original.

Outra violência policial revoltante, nos anos 80, que presenciei algumas vezes, era contra os camelôs. Eu trabalhava na rua Álvares Penteado, e na São Bento tinha muitos camelôs, a maioria deficientes físicos, mesmo assim, os policiais agiam com violência contra os camelôs, vi muitos deficientes físicos caírem na rua (de suas cadeiras de roda) empurrados por policiais que vinham recolher suas mercadorias. As pessoas que trabalhavam nos prédios, vaiavam os policiais e jogavam água, cinzeiros, clips e outros objetos nos policiais.

Na periferia, em verdade, a violência policial nunca acabou, pelo contrário. Você acredita estar havendo, em plena democracia, século XXI, um “extermínio de negros e de pobres” orquestrado por grupos militares? Acha legítimo o uso deste termo?

R: Sem dúvida, não há como fechar os olhos a esta realidade, todas as pesquisas confirmam: a maioria das vítimas da violência são jovens negros, pobres e de baixa escolaridade. São vítimas da discriminação, do racismo e principalmente da violência policial (apesar de muitos policiais serem de famílias negras e pobres). Na Brasilândia a presença de grupos de extermínio, infelizmente, é ainda uma cruel realidade.


Sei que a resposta será difícil, mas em qual arte que pratica você se vê melhor expressada?

R: Realmente, difícil. Para a pintura, uso pouco do meu tempo, mas é um prazer imenso quando consigo me dedicar a essa arte. Bem, eu gosto muito de escrever, é quando eu paro pra olhar pra dentro de mim e me redescubro. Amo as palavras, elas batem dentro, profundo, me causam certa comoção e me fascinam.

Mas, como diz o dito popular, "a ocasião faz o ladrão". Vivo por aí roubando imagens. Sempre com uma máquina na mão, me encanto com formas e cores. Veja só, não consigo escolher, me identifico nas três artes, todas elas para mim são poesias.



O romance “Vale dos atalhos”, tal qual um documentário, parece pintar um quadro geo-político e cultural da nossa região (Brasilândia): criação, evolução, resistências e permanências. O que a motivou escrevê-lo e, se puder mensurar, quanto tem de ficção e quanto tem de realidade em tudo o que o cerca?

R: Você tem razão ao falar em quadro geo-político e cultural; a ideia primordial foi fazer um retrato histórico de nossa região, eu tracei uma linha imaginária que vai da minha casa, na Vila Penteado, até o Pico do Jaraguá, "caminhando" por dois rios da região. Somei lembranças que tinha de alguns acontecimentos com pesquisa, partindo dos tempos da colonização portuguesa. A gente encontra alguns dados (poucos), pesquisando a história da Freguesia do Ó, um dos bairros mais antigos de São Paulo. A Brasilândia nasceu dentro desse quintal (periferia da Freguesia) séculos depois. Pesquisei sobre as populações indígenas, africanas, sobre a procura do ouro no Pico do Jaraguá, as pedreiras, a fábrica de cimento de Perus e sua história de lutas. Quanto à transformação ambiental usei mesmo minhas lembranças para descrevê-las. Fiz também uma pesquisa sobre a imigração espanhola no Brasil (minha descendência paterna), para entender melhor as histórias que meu pai contava de sua família, e outros grupos de imigrantes são citados também. Acho que a formação da população, a geografia, a flora e a fauna originais da região, é a parte real contida no "Vale", os personagens são fictícios, criei famílias e histórias que envolvem essas famílias, e criei as lendas, embora usando elementos do nosso imaginário popular, o medo, o mágico, as crenças. As lendas são para dar um certo conforto, um alívio, às muitas dores e dificuldades desses personagens.


Qual importância você dá ao Sarau da Brasa na sua vida e para toda a comunidade? Fale dos momentos que mais te marcaram nesses 6 anos de existência.

R: Primeiro, pensar em um sarau dentro de um bar, na periferia, já é uma ideia genial. O bar é um lugar público, aberto, onde qualquer pessoa pode entrar. Quebrar a tradição de local frequentado por homens, e contar com a presença feminina e até de crianças, tempos atrás pareceria inimaginável. Ter uma biblioteca (montada pela doação e boa vontade dos frequentadores) onde quaisquer pessoas, mesmo as que frequentam o bar e não o sarau, podem emprestar livros é outra coisa fabulosa. Incentivar a leitura, a criação literária (com melhores resultados no sarau do que nas salas de aulas). Ser um espaço aberto onde os grupos culturais podem apresentar e compartilhar sua arte: música, teatro, grafite, artes plásticas, fotografia, dança, enfim, todas as artes cabem no sarau e são bem recebidas.

Então, para mim, que sempre fui tão envolvida com arte, e que por diversos motivos fiquei muitos anos produzindo muito pouco, ter esse espaço (o Sarau da Brasa) foi e é algo muito importante. Sempre digo que a arte não é algo para competir e sim para compartilhar. Com essa porta aberta, conheci e pude trocar experiências com outros grupos e saraus de São Paulo e de outros estados do Brasil, chegamos até em outros países, por exemplo, com a antologia "Saraus", onde participo com o poema "Rua de Trás, traduzido para o espanhol "Calle de atrás", publicada em maio na Argentina pela editora Tinta Limón, compilação de Lucía Tennina e, em outubro deste ano de 2014, a mesma será publicada também no México.


Para encerrar, diga profundamente o que quiser.

R: Willian, o que quero agora é agradecer o seu convite e louvar a iniciativa do seu projeto "Entreletras", que só faz crescer o movimento literário projetado, principalmente, a partir do ano 2000 e que vem invadindo os espaços marginalizados das grandes cidades, dando uma perspectiva, trazendo conhecimento e inserção social aos jovens e moradores dos nossos bairros periféricos. Grata.



ALGUNS POEMAS E FOTOS AUTORAIS:


JUVENTUDE

Assim como o fogo,
aceso
no centro da roda
de amigos,
a cachaça generosa
dividia seu calor
expulsava o frio,
o medo
e as angústias.
O futuro
parecia
próximo e belo.


SENTINELAS DA PERIFERIA

Os sentinelas deixaram seus postos
Professores e alunos foram dispensados
Apagaram-se as luzes
A população se recolheu
Os ônibus deixaram de circular

Fogo!!!
Disparos!
Medo! Violência! Mortes!

Silêncio...

Choro e velas na periferia.





















BIBLIOGRAFIA, LINKS, CONTATOS:

Rua de Trás (poemas), publicados pelo Sarau Poesia na Brasa, em 2009.
Nem Tudo é Silêncio (romance), publicado pelo Sarau Poesia na Brasa, em 2010.
Vale dos Atalhos (romance), publicado pela Editora Sundermann, em 2013.
Poemas diversos publicados nas quatro antologias do Sarau Poesia na Brasa,  Antologias do Sarau Perifatividade, Antologia Saraus - Movimento/ Literatura / Periferia / São Paulo (editora Tinta Limón)
Publicação de fotos em revistas, livros, sites e blogs diversos.

www.facebook.com/soniabischain
soniabischain@hotmail.com




sexta-feira, 19 de setembro de 2014

LEIA-SE: "COMO ELEFANTES AO MAR"


Um romance de “pé-na-estrada” no melhor estilo “beat”. Um romance cru, seco, sem meias palavras. Um romance sem moralismos. Um romance para se ler numa tacada e levar pelo resto da vida. A saga de Diego, deslocado de sua vida burocrática para incursão num "projeto de puteiro", será só o início? Até onde esses elefantes nos levarão? Ao mar? Às putas que nos pariu? A nós mesmos? "Como Elefantes ao Mar", de Rodrigo Freire (Editora Patuá, 2013), não pretende ser mais do que é: leitura obrigatória!

Abaixo o poema-homenagem que, à época, escrevi, tomado por sua leitura súbita e, com muita honra, em primeira mão.


SEDE

para Rodrigo Freire nadar
             ou musicar”

ando todo perdido
sem  tempo pra proust
sem saco pra barthes
com machado roendo
meus vermes.

tá osso não ler freud
nem tocar no joyce
deixar rosa mudo
marx falando sozinho

e sartre com essas paredes ...

fico cevando cervantes
pra só catar coelho:
uma água no joelho
e outra que não me lava.

ando tonto
broxa na rede
puto sem dentes

um tanto quanto
Ensimesmado

(alimentando elefantes brancos
na porra de um mar de náuseas
que só me causa sede)



Compras diretamente com o autor, pelo email "melacocci@gmail.com", ou no site da Editora Patuá.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

Entreletra: NI BRISANT



Ni Brisant, 28, é natural de Acajutiba-BA. Em São Paulo desde 2004, Ni é um dos idealizadores do "Sarau Sobrenome Liberdade" e do clube de leitura divergente "Ninguém Lê". Educador, desenhista, revisor de diversas obras literárias, escreve com sinceridade abrasiva e sutileza incomum. Também conhecido como "Poeta Sentimento", destaca-se hoje como um dos mais populares escritor independente da capital paulista.


Entreletra:


Mais que escritor e agitador cultural, você se diz um “bahia”. O que é ser um “bahia” em São Paulo?


R: Bahia é a mão (e o fio) que costura esse vestido de luxo chamado SP. Invisibilizado, porém imprescindível.

É não pertencer. Não caber bem em lugar algum. Por isso a constante urgência de moldar-se e insistir na invenção de sua própria pátria.


Como artista independente, você abriu e vem abrindo suas próprias portas. Fale o que é ser “independente”, os prós, os contras, e a importância dos saraus para sua arte.


R: Gosto de pensar a independência como a água que cai da chuva. Chega sem passar por filtros, canos... intermediários.Conheço todo mundo que “trabalha” nos meus livros, do revisor ao cara que faz a impressão. Por exemplo, o Marciano Ventura é meu amigo e também o responsável pelos projetos gráficos. Quando penso em publicar algo, não é pela grana que o convenço a abraçar a ideia; tem a ver com crença e respeito mútuo. Não se usa esse tipo de argumento com grandes editoras, entende? Óbvio que produzir arte desse jeito dá muito mais trabalho, mas também dá uma alegria saber que é legítimo e honesto cada passo dado. Ser independente não é estar só; é escolher com quem e por onde andar.O maior desafio é fazer com que os livros cheguem às livrarias do mundão e possam ser degustados por mais gente. Por outro lado, as redes sociais têm me “ajudado” nesse processo de distribuição.Acabei criando uma relação sólida de respeito com os leitores porque não procuro fãs; quero amigos, parceiros. Tanto é que Para Brisa (meu 2º livro) foi parcialmente financiado por essas pessoas que acompanham meus textos nos saraus, que são espaços/encontros nos quais tenho aprimorado minha escrita e humanidade.

Seus textos transitam entre a prosa e a poesia. Em qual gênero melhor se encontra? Para você, há uma separação clara entre eles?


R: Embora utilize mais versos, na minha cabeça sou prosador. Gosto de escrever para contar histórias e, no final das contas, não é a forma que separa a prosa da poesia. Não vejo elementos que dissociem seguramente um gênero do outro. No miolo tudo é verbo.


Se você tivesse mesmo seu próprio dicionário, qual significado teria “morte”?

R: Derradeiro mau exemplo

que se dá em segredo de si mesmo.

O que acha do termo “novo cenário da poesia paulistana”? Você crê fazer parte de um novo movimento artístico/cultural unificado? Fale sobre.

R: Acho ultrapassado. Faço parte de um movimento inédito, mas não unificado. Existem muitas coisas em comum entre os saraus/escritores, mas os objetivos (na prática) divergem bastante. É natural que existam contradições. Toda a diversidade encontrada por aqui acaba trazendo ainda mais beleza e vigor ao movimento. Devo dizer que as experiências mais profundas que vivi nos últimos anos aconteceram graças a esses terreiros literários.


Para encerrar, diga profundamente o que quiser.

R: Não vai chover. É só um caranguejo em forma de nuvem.




Dois breves textos do autor:


A arte não me levou aonde eu queria,

mas fez do meu coração um lugar habitável.


***



Se você vive para ter pessoas

aos seus pés,

jamais terá alguém

ao seu lado.



Bibliografia/Contatos:



Ni Brisant é autor dos livros “Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas” e “Para Brisa”. Com textos publicados nas antologias "Sobrenome Liberdade", "Menor Slam do Mundo", "O que Dizem os Umbigos", "Poetas do sarau Suburbano Convicto" e "Poetas Ambulantes".

Escreve no blog: http://nibrisant.blogspot.com.br/

E-mail: nibrisant@bol.com.br





(crédito da foto: Flávia Barros)

***

Nesses poucos, mas anos de verdadeira amizade, tive algumas parcerias poéticas com o Ni. Abaixo uma dessas e, logo após, uma homenagem que divulgo aqui em primeira mão.

-ROTA DE UM ALVO A BORDO-

        (W.Delarte e Ni Brisant)

era flecha no mar,
na mira
afundou-se.


virou barco,
na terra
envergou-se.


cavou-se,
virou rio.


tocou o arco

e nunca mais ficou a ver

(   )  (   )  (   )

vazios.




-QUANDO NI CHOROU-

Quando a Bahia e todos orixás
abraçaram sua mãe na sacola,
Ni não olhou pra trás:
carregou todos na sua
e chorou.

Quando São Paulo
lhe deu a face mais cinza,
Ni pintou a outra
e também chorou.

Era choro de artista
e, você sabe,
artista mais sabe é fingir;

mas quando sua filha
chorou no hospital
pela primeira vez,
Ni chorou como se fosse
o último na Terra:

era choro de alegria
essas coisas que Ni escrevia
e poucos sabiam entender.

Quando Ni levou
seu Coração pra passear
sua mãe chorou
e todos orixás confirmaram:
Ori de pássaro
nasceu mesmo
pra voar

            r
      a
      o
v

Agora,
quando Ni chora,
sua mãe é sua fauna,
sua filha é sua Flora,
e a passarinhada livre
sorri.






quinta-feira, 24 de julho de 2014

Crônica Envenenada: "TOTEM"


"para Luiz Brener”

Há imagens que ficam mais novas com o passar dos anos, e há imagens que dizem mais de nós que qualquer outra coisa. Na amoreira que tínhamos no quintal da minha infância foi que uma dessas me apareceu, e ficou. Era galhuda, folhosa, linda a nossa amoreira. Na época de frutos ela ficava carregada e todo o chão se pintava com seu sangue violeta. Pela manhã, ainda sob o frescor do orvalho, é que acontecia dela atrair o maior número de pássaros. Sempre fui fascinado por eles, herança do meu pai, que até os dias de hoje tem lá seus pixarros, pintassilgos,  canários e curiós. Mas nunca gostei de gaiolas, gostava era de persegui-los na natureza: armar a arapuca, admirar a caça e soltá-la depois. Minha grande aventura era descobrir um ninho na mata e acompanhar o dia a dia dos seus provedores, o momento em que os filhos piavam fino e abriam desesperadamente o bico para receber alimento. Esse fascínio fazia com que eu acordasse mais cedo e, sem que minha mãe  percebesse, fosse para o quintal observar a amoreira e seus convidados.

Foi numa manhã dessas que ele me surgiu. Um pássaro inédito. O sol vinha fio a fio, abrindo caminho entre as folhas, e seu peito de tão amarelo se confundia com ele. Cegou-me. Tinha o tamanho de um bem-te-vi, mas não era um. Seu amarelo era mais amarelo e, o mais incrível, as asas eram azuis, muito mais azuis que a de um azulão ou  assanhaço. Ele ficou de perfil e pude ver uma espécie de crista vermelha. Paralisei-me. Foi nesse exato instante que minha memória deu o flash. Nunca mais me reencontrei com esse pássaro. Nas excursões ao zoológico, enquanto todos iam atrás do leão ou do gorila, eu perambulava a procurar uma espécie parecida e, como nunca a achei, penso mesmo que essa ave foi adquirindo aspectos míticos, ou mágicos, dentro de mim.

Falava que há imagens que dizem mais de nós que qualquer outra coisa, e hoje não tenho dúvidas disso. Valores e sentimentos se transformam com o tempo, tudo o que compõe o ego pode vir a ser efêmero ou transitório. Mas uma imagem assim, não. Ela ganha cor e contorno, solidifica-se, e deve haver algo de muito nosso responsável por essa seleção lá dentro. Já fui algumas coisas nessa vida, atacante, caçador, poeta, músico, professor, contador, índio fora da tribo, mas hoje sei que desde então - e para sempre - fui mais aquele pássaro. Batizei-me de azul e amarelo e, certamente, corre mais em minhas veias o sangue daquela amoreira.



sexta-feira, 13 de junho de 2014

BOLA DO DONO. BOLA MURCHA


A abertura foi o retrato cristalino da copa no Brasil: jogo roubado, gol contra e de bico, arquibancada branca, show fuleco com artista importado e nacional controverso, juiz comprado, mídia comprada, comissão técnica comprada, jogadores comprados e, lá fora, a polícia mais sanguinária do país fazendo seu serviço sujo. É mesmo pra se chorar no hino.

Choro vendido.



sexta-feira, 6 de junho de 2014

LEIA-SE: "AINDA COMETO UM SAMBA"


Recentemente tive a honra de pitacar na orelha deste primeiro (e grande) romance do querido irmão Walner Danziger. Abaixo o texto e a devida recomendação!


***


"Este livro que cai em sua mão, distraído leitor, não se engane: é um delicioso tapa na cara! Papo reto, direto ao ponto, sem goré-goré. Mais: é uma experiência rítmica, batuqueira, em perfeita conformidade com a música que a tudo permeia e invade a sintaxe do romance.

Com um linguajar que lhe é peculiar, e estilo muito próprio, Walner Danziger consegue o inusitado: um desfile de cenas quotidianas, sensuais, trágicas e bem humoradas, que vai passando pelos nossos olhos à moda dos grandes carnavais. O surgimento das Escolas de Samba e sua evolução no tempo - como eixo de uma estrutura social a que chamamos “Comunidade” - são pano de fundo para o autor lançar seu telescópio certeiro sobre o Humano e suas angústias: existencial, social e política.


Homem do teatro que é, o autor se deixa claramente influenciar por este universo formal, seja na montagem das cenas, seja em certa caracterização típica das personagens. Poderíamos ainda pensar na relação com o cinema, na forma cinematográfica em que os capítulos se entrelaçam, nos zoons, nos flashbacks, nos deslocamentos. Poderíamos citar Plínio Marcos ou, quem sabe, um Pedro Almodóvar? Mas eis aqui, acima de tudo, uma boa literatura. Realismo ácido, sem qualquer moralismo barato, sem massagem nem xilocaína. Influência “beat” na veia, saborosamente maldita.


Ainda mais: um texto totalmente marginal e de profunda identidade com a massa de seu povo, sua gente menos abastada, enfim, a maioria de nós que, como Shéq ou Simpatia (personagens centrais desta trama), matamos mil leões por dia, engolimos outros tantos sapos e estamos a um fio de cometer uma tragédia, um ato de amor: um Samba".




* O livro pode ser encontrado na Livraria Suburbano Convicto (Rua 13 de Maio, 70, 2o and - Bixiga, São Paulo/SP) ou diretamente com o autor pelo email "walnerdanziger@gmail.com".






quinta-feira, 5 de junho de 2014

CRÔNICA ENVENENADA: "PETER PAN NA TERRA DO JÁ"


Não deveria ter seguido aquele rato até a toca, mas Peter não nasceu para seguir deveres. Lá dentro, sem perceber, entrou numa estranha tubulação e fora engolido.

Um segundo depois, quando pressionou a tampa do esgoto e, com a cabeça para fora, viu os prédios a lhe engolir, teve ânsia. As buzinas o deixavam ainda mais tonto. Vomitou. Vomitou e foi rapidamente multado por sujar a cidade. Tentou voar, mas já não sabia. Resistente, levaram-no à delegacia.
           
Sem saber explicar o que fazia nas tubulações de esgoto, e sem pai, mãe ou advogado a quem pudesse recorrer, Peter foi enjaulado com mais cem animais num quadrado que cabiam dez. Estranhou não estar, ao menos, junto com as crianças desse mundo. Desolado, passou a mão no queixo. Percebeu que ganhara barba e que as horas corriam demais por aqui.

Saiu da prisão no dia seguinte, já com sessenta e cinco anos. Sem nome, sem história, um cachorro amigo e papelões nas costas. Dois segundos depois um garotinho o estranhou pelas ruas.

- Mãe, por que o velho de verde não para de bater os braços?
- Não olhe, problema na cabeça.
- Na cabeça?
- Vamos!
- Mas mãe...
           
Em sua última olhada para trás, já distante, o menino viu o velho no tamanho de um polegar. Fechou um dos olhos e colocou o dedo rente ao olho aberto, tapando por completo a imagem de Peter. Quando retirou o dedo, o velho não estava mais lá. Poderia jurar que voou. Jurou. Ideia criou raiz. Problema na cabeça. O menino não cresceu. E viveu demais.


Cinco dias após sua morte o garoto muito velho fora encontrado sozinho. Sem parentes, sem ninguém, não houve reza nem velório, mas o manuscrito desta história desencontrada, encontrado ao lado do corpo, tornou-se um grande clássico da literatura moderna, esquecido, porém, pela geração seguinte, depois por outra, e por outra, e outra.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

OLHAR


há poesia na dinâmica das sombras
na estrutura e no movimento silencioso
de todas as coisas.

falta-nos olho nu.



 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

COPA E COZINHA


a copa é do povo
e a cozinha do mundo é um quarto
histérico e fechado
que pulsa:

o mundo é negócio da china
a coisa na líbia tá síria
aqui o negócio tá fifa
na síria a coisa tá russa


(e o soccer global 
que nos fuck)




DELARTE - OBRAS PUBLICADAS:

SENTIMENTO DO FIM DO MUNDO (poesia)

SENTIMENTO DO FIM DO MUNDO (poesia)
Clique nas imagens e adquira os livros pelo catálogo da Editora Patuá. Também podem ser encontrados nas Livrarias Cultura e Suburbano Convicto (SP).

CRAVOS DA NOITE (contos)

O Alien da Linha Azul (poesia)

O Alien da Linha Azul (poesia)
Aquisições com o autor ou no Bar & Livraria Patuscada