terça-feira, 24 de setembro de 2013

EWÁ: DEUSA. DANÇA. ÂNCORA


I

venha cá, se achegue. e fale mais desse avesso. fale desse tropeço, do desaconchego desse soluço. ãh, foi susto? foi não. foi nada. é esse descompasso marcado, esse jogo viciado, esse lance de sorrir, por sorrir. essa rugosidade na pálpebra parece leveza, mas se vê que é cansaço. esse jeito de piscar sem querer, de segurar as palavras na ponta dos dentes, no fundo da língua. fale, vamos, fale! e dê cá um abraço. esqueça essa loucura de ser feliz. inventaram mentiras melhores, sabia? nenhum anjo virá pra te salvar, e o céu está mais vazio que, sei lá... pense n´algo vazio. é isso. toda força há de surgir desse ponto, desse encontro. agora, vamos, encanta-se! vire salamandra, galinha d´angola, aranha trepadeira. a vida é sempre imaginada, sabe? e só lhe trará alguma semente cósmica se partir desse ponto. encontre sua pulsação, grite e sobredeite-se. estamos juntos, sempre juntos, só em barcos diferentes. veja o mar, parece grande e inconsciente? pois seja. escafandre o céu e preencha-o com sua ausência. pronto. todo esse peso, essa câimbra, foi nós também que inventamos. perceba: há uma falha, um vão, um jeito de se completar que é só seu. dance e sobredeite-se! está vendo? há mentiras muito melhor imaginadas. e há mais verdade nisso.

II


há um lugar que é só nosso. carrego o meu há mais de quinze anos. fica entre a copa de algumas árvores. o movimento é sempre o mesmo: entreabro-as vagarosamente, primeiro com uma, depois com a outra mão. meu rosto avança entre a folhagem e os olhos se esbugalham com a luz de um horizonte inalcançável. no meu lado direito, escorrendo sobre a montanha com a elegância de uma deusa, abre-se uma tripla cachoeira. cai e se perde no mar. bolha com bolha com bolha. ao meu redor, mar, azul azul e martins pescadores. por trás das quedas pulsa uma exuberante gruta de formato triangular. dá para entrar em sua profundidade, sentir a umidade, ouvir o som cristalino dos pingos que caem lá dentro. sempre que preciso de um descanso, dormir, respirar, vou para lá. fico horas observando as penas daqueles pássaros, flutuando na queda d´água, voando no sal da brisa, esticando o mar. esse lugar não existe. o trajeto diário, que sigo de casa ao trabalho, também não existe. as pirâmides do egito, para fora de todos os cartões postais, também não existem. a geografia do mundo há de ser sempre uma ilusão perante o meu lugar que nunca existiu. e que avança a cerca um metro a cada dia. e que se afundará comigo na memória > qual âncora < em sua dança de água. 



(Foto: Sebatião Salgado, em "Gênesis")

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

DO ESQUECIMENTO


pensava...

... ah, sim: pensava se nosso cérebro pode comportar tantos dados jorrados indecorosamente por tantas e tantas mídias de informações, imagens e sons...
 
...  talvez nem fosse isso o que pensava, mas, ah!, como gostaria  de scanear o meu, extrair trojans, vírus e executáveis inúteis, desfragmentá-lo, não, formatá-lo de vez e criar duas unidades separadas para alojamento de todo este caos:

- uma para o sistema operacional da vida, 10%;

- outra para uso e abuso da lixeira(*1).


*1 - compartimento onde acumularia toda fórmula de felicidade e esvaziaria, diariamente, momentos antes de pregar a pálpebra(*2).

*2 - lençol de retina
para olhos rasos
de pijama


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

?

?Para onde vão
os pés de Amarildo
quando o olho da noite não o vê?

?Cadê os lábios,
cadê o queixo de Amarildo?

?O joanete, aquele bico
de papagaio, a pinta
que só ela reconheceria
na calada do dia
na boca
no fumo
no beco da madrugada?

?O que fazem
os dedos de Amarildo?

?Serão setas? ?Buracos negros?
?Desenharão sóis na areia?

?Serão ossinhos
ou palitos de dentes
na fuça de um cão?

?Onde deita a retina da mulher
quando encontra nos olhos dos filhos
só a ausência do marido?

?Cadê Deus que não a escuta?

?O que será do crânio,
o que terá no peito de Amarildo?
?Três balas? ?Dois sonhos?


?Um vão?




quinta-feira, 11 de julho de 2013

BROTO



melancolia que arde em mim
é fogo brando: queima
quando em quando
mas nunca chega ao fim

é saudade pura
verdadeira: esteira
na qual se deita
toda a humanidade

(pode a dor 
e regue com alegria
seu pé-de-melancolia

mais dia
menos dia

brota corpo
e brota alma:


brota amor)



(foto: arquivo pessoal)


quinta-feira, 20 de junho de 2013

COMO NOSSOS FILHOS


Lembra daquele adolescente estranho com aparelho nos dentes, que vivia dentro de um RPG, dia e noite no celular, madrugadas no computador, que você tinha como solitário e alienado, com o qual você jamais conseguiu estabelecer qualquer contato? Então, ele está falando de Movimento Social de Liderança Coletiva e Horizontal numa Organização em Rede. 

Ãh, o que é isso? Sei não. Ele cresceu, pergunte pra ele.



segunda-feira, 17 de junho de 2013

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS CUPINS


Perdão, amor,
mas hoje falarei de outras flores.

Elas crescem e despetalam
como cupins.

Elas se amontoam como cupins
e, como cupins, destroçam os móveis
por dentro.

Móveis do mundo, cupins das arábias, 
tortos,
meio sem jeito
de esmagar nas mãos,
de reter nas mãos,
de cegar com gás.

Há uma praça na Turquia
cheia deles, amor.

Como sementes ao vento
eles rosnam por toda a parte:

é um buquê de dor,
essas flores poderosas
que movimentam as massas.

Suspenda a cerveja,
o tempo do vinho passou:

é hora de vinagre e coquetel molotov,
mudança, dança muda,
filha de toda Revolução.

Toda Revolução, amor,
esmaga a poesia dos livros,
liberta a poesia dos livros que,
apátrida,  
indigente,
indecente,
volta a viver nas ruas.

Essa flor, amor,
perdão, é pra você.

E nos vemos na rua.



Manifestação de 15/06/2013 contra a Copa do Mundo e das Confederações em Brasília
(crédito da imagem: Ricardo Matsukawa / Terra) 


sexta-feira, 14 de junho de 2013

TEATRAL.NAZISTA.MEDIEVAL!


Eu poderia falar que este 13/06/2013 ficará na memória paulistana como o dia da Vergonha Policial e de toda Administração Pública;

que a polícia é um braço desta Administração e, como reza a nossa Constituição, sua função maior é zelar pelo Interesse Público, tendo este Supremacia sobre o privado;

que a polícia paulista é a mais truculenta do Brasil e despreparada (desde o treinamento da Ditadura) para saber o que significa Constituição Federal, Administração e Interesse Públicos;

que em todo o mundo, e inclusive aqui em São Paulo por diversas vezes, toma-se naturalmente a avenida principal dos centros urbanos em atos de protestos, e que a função da polícia neste caso é Zelar, Proteger e Organizar a manifestação para que ela cumpra seu papel e o Interesse Público seja alcançado, neste caso, viabilizando a logística para acessos a pontos importantes desta redondeza, hospitais, por exemplo;

que a polícia, sentindo-se protegida pela mídia e opinião pública, a mando de seus líderes do executivo (estadual e municipal), flagrantemente retaliou a manifestação do Movimento Passe Livre, impediram seu direito constitucional de Reunião e manifestação do pensamento e, mais, agiram com força desmedida, descendo o pau, bombas e cassetetes,  aleatoriamente e, depois, num ato nazista-teatral, passou a exibir sua força com cavalarias medievais, marcha de Tropa de Choque, bombas ao ar, numa Avenida Paulista praticamente sem manifestante, com civis que não tinham nada a ver com a ocasião (nas calçadas) sendo presos e agredidos, como muitos jornalistas e cinegrafistas;

que este ato foi, numa primeira instância, um tiro no pé, já que a mídia agora se volta contra ela, a polícia, e, em última instância, foi benéfica ao Movimento, que se fortalece e passa a ter o apreço (boicotado anteriormente) da opinião pública;

que essa história de “aumentamos menos que a inflação” é falácia total, pois o salário do trabalhador não vem acompanhando esta e nossas passagens são as mais caras do mundo, acrescido a isso a desaprovação total dos cidadãos frente ao Sistema Público de Transporte paulista e paulistano;

que os Srs. Governador do Estado e Prefeito do Município de São Paulo em nenhum momento aceitaram negociação ou conversa;

que a proposta do Ministério Público em suspender o aumento por 45 dias para que se chegue a um acordo também foi ignorada;

que os dois estão dando os braços e dizendo a si e ao povo “somos fodões, não recuamos, estão vendo nossos colhões?”, mas apenas quero registrar uma frase disparada pelo professor e filósofo Vladimir Safatle:


“Democracia é barulho: silêncio é Ditadura!”



(imagem extraída do link: 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

UMA CANÇÃO PARA O FIM DO MUNDO


Quando o segundo sol chegar
em detalhes
tão pequenos de nós dois,
don´t let me down:

deixe o verão pra mais tarde.

Eu sei, eu sei...

People are strange
- e a que será que se destina? -,

mas malandro que é malandro mesmo,
levanta, sacode a poeira
e dá a volta por cima!

Quando o segundo sol chegar
numa explosão atlântica
- like a virgin, peixe-de-vidro -
entre tapas e beijos
meu coração tropical vai fazer
tchú!

Vai fazer tchá!

Eu sei, eu sei...

Como se fora brincadeira
de roda
tem que morrer pra germinar.

- Cadê a flor que tava aqui?
(as rosas não falam...)

- E o peixe que é do mar?
(vida loka, nêgo...)

- E o verde, onde é que tá?
(I am the one
Orgasmatron!... )

É tchú...
(erguei as mãos...)

É tchá...
(vai descendo na
tela da TV no meio
desse p...

...are!

- Até quando você vai mandar

e mudar

e mandar

e mudar

e...

(- Com que roupa eu vou
quando o segundo Sol

chegar?)



(imagem do filme "Star Wars")

terça-feira, 14 de maio de 2013

LIÇÃO DO SOL

                            (ao César Moraes)


I

ruminando seu núcleo
inchará numa gigante vermelha
até morrer
e sugar todo o sistema
e se transformar numa pequena
branca
e cristalizada
estrela de dez bilhões de trilhões de quilates:

--- clarão da dor ---

diamante bruto transmutado
lapidando o céu


II

que depois de findar o mundo
e tudo se rearranjar no tempo
vestido de branco
deus só descanse
e se suje antes, na quinta
e faça uma semana nova
só de sextas
santas, sem mártires
sem corrida contra o tempo. ah, tomara,
Oxalá que faça.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

CARTA MAGNA


Confiram esta edição da revista (moçambicana e lusófona) "Literatas".

Foi publicado um poema meu lá na página 14, o "CARTA MAGNA".





Um grande abraço aos amigos moçambicanos da revista Literatas e do movimento Kuphaluxa.

Vamos juntos!



sábado, 27 de abril de 2013

NORMA CURTA


O probrema mais grande
não está nos errôneos escrevidos
nem no falar dos incultos:

desvirtuantes, mas menas lembradas,
é as aberrânsias das palavras
em oficiais pronunciânsias

e tantas e tantas leis sancionadas
em perfeito português


segunda-feira, 8 de abril de 2013

DO ESPÍRITO DO MATERIAL

A miséria material, salvo caso excepcional, é terra onde se lavra muita riqueza espiritual. Salvo caso excepcional, o inverso também é verdadeiro. 

Sabedor deste mecanismo natural, o católico, por séculos, fomentou a miséria da carne e da matéria, garantindo ao fiel um pedaço de céu.

Sabedor desta estrutura cósmica e capital, o protestante promete, em terra, um pedaço de céu.

Nos dois casos, sabe o historiador, a riqueza espiritual é adubo para terras onde só se lavram (ou lavam) o capital.  


sexta-feira, 15 de março de 2013

AS ROUPAS DO REI

                “para Ni Brisant vestir”                  

É, guerreiro,
é mesmo tipo assim
como nascer pra fora de si
trocar de pele
mudar as paredes de casa

essa coisa de existir
ser artista, essa coisa

é sempre tipo assim
sem regresso
liberdade sem sobrenome
chama convicta que se abrasa
tipo uma galinha,
manja?

ela nunca reclama da inutilidade
de suas asas







terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

PLACEBO

                        “para Walner Danziger”

carne batizada gasolina
abençoada bateria viciada
água benta pra moçada
cabeça

de nêgo não é teta
de nêga

doce
não é doce,
nêgo:

é copa pro povo
saúde pro banqueiro
entra ânus sai ano
é ano novo

e o processo tá frouxo
e o bagulho é extenso
e o barato tá pouco
holocausto é complexo
do alemão

quem não tem papel de pão
vai com folha de
chuchu

e no
da nação

o que é que vai?


 
grafite do Bonga Mac - Itapevi, 2012 
(mais trabalhos em sua página no facebook: https://www.facebook.com/Originalbonga?ref=ts&fref=ts)




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

VIRTUDE ORIGINAL


                           “ao poeta e folião Eduardo Lacerda”


todo veneno é seu antídoto
e a cana - patente eterna de Adão -
também nos doa muita glicose
da boa!

o Palhaço do Apocalipse
com mais de mil tristezas no salão 
desfia o céu das Serpentes
faz da cruz sua Folia
faz da dor sua Paixão

e ressuscita todo ano
um ano-novinho em cinzas
(mas só depois do quarto dia)



"Crianças Geopolíticas Assistindo ao Nascimento do Novo Homem"
(Savaldor Dali, 1943) 





segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

DO TODO E DAS PARTES

Quando acompanhamos de perto um ente querido em sua luta contra um tumor maligno, por exemplo - com sede de viver, com todas as garras para viver! -, é que passamos a repensar o lugar que as paixões ocupam em nossas vidas. 

Por que gastamos tanta energia em nos firmarmos como seres desejantes em oposição ao outro e não conseguimos apenas abraçar o outro em sua diferença?

Por que amar, só amar, é tão difícil?

Essa situação limite coloca em suspenso todas as implicações comezinhas da vida, e põe ela, a Vida, no mais alto altar. 

Lembrar que ela é a maior e inexplicável dádiva que temos, afirmá-la por completo em todas as suas contradições, é livrar-se um pouco de si e sentir de uma forma realista o holismo - o transparente, evidente e poético holismo da existência. 

Sim, you may say I'm a dreamer...

... mas não sou o único!



Ilustração do parceiro Tiago Costa




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