sábado, 25 de agosto de 2012

A VIDA EM BRASA


Fui lá, mas antes deixei o cigarro e o celular, como pudesse assim me libertar de duas prisões.

Tranquei o portão e deixei as pernas me levarem ao sabor do vento. Fechei também as portas do pensamento. O jogo era esse, viver: desbravar as ruas que costumei a ter como pano de fundo, rasgar este pano de fundo.

Aqui é a Brasa - Brasilândia  - que, não por acaso, leva o nome de Brasil. É um mundo dentro do mundo, bairro periférico do norte de Sampa que habito há pouco mais de dois anos e que, talvez, só agora começo a nele me entrever; não porque me é estranho, mas porque há pedaços de mim espalhados por todos os lados e em nenhum deles eu encontro infância: este lugar onde fincamos o pé e chamamos "de meu".

Tranquei o portão e as portas do pensamento e fui lá... Gosto daqui, caos familiar. Gosto do caos, do barulho do caos, ainda que eu minta e maldiga isto aos quatro ventos, mas hoje eu só queria sentir o cheiro e o sabor dos ventos.

Fui lá fora e vi o rapaz que fazia cooper com seus mp3´s. Corria para não chegar. Corria por correr. Correr assim, é viver, pensei. Pensei demais, pensei. Não queria pensar, queria viver.

Cortei algumas ruas. Escolhi, por estratégia, as que nunca havia adentrado. Um funk carioca já começava a tremelicar o corpo de duas adolescentes que pousavam-se à frente de casa. O corpo é um baile, pensei: e seus corpos já estavam à flor da festa... Se não há mais nada que nos resta, por que não dançar até morrer? Deixar-se envolver com o batuque no batuque, e nem se importar com que estão ali a dizer, ah, pensei, isso é viver.

Acelerei-me: um mini-cooper com batuques de funk internalizados nos passos. O Sol me suava. Tirei a camisa. Suar é viver... O mesmo Sol iluminava um mecânico que eu avistava do outro lado da rua. Em seu fazer atencioso, imerso na mecânica daquele carro, não parecia trabalhar, parecia viver. Trabalhar também pode ser viver, pensei. Os  pensamentos, tantos pensamentos, já não cabiam dentro do quarto fechado que tentei os prender. Soltaram-se todos, arredios, doidos, malucos, e tudo parecia me sugerir vida: lá fora tudo é viver, pensei.

Errei pra lá, errei pra cá, errei e consegui o que tanto queria: me perder!

Perguntei a uma senhora mais ou menos o caminho de volta, na esperança ainda dela se enganar e jogar-me num beco sem saída, onde eu só pudesse viver... Muito educada, desejou-me um bom dia, um deus-me abençoe, e saiu sorrindo como quem vivia.

Por fim, dei mesmo num beco, mas aparentemente com saída. Uma ladeira, melhor, uma subida com diversos degraus que também cortavam ruas e beijavam outros becos. Suava-me mais, e o cheiro da vida já começava a vencer.

Vi duas garotas mais acima, abraçadas. Não se atentarem a mim. Beijaram-se. Ah, foi lindo de se ver... O mundo fora desses muros parecia se esconder. O mundo não se acostumou ainda a ver a beleza do beijo de duas garotas, pensei. Eu queria sentar num camarote, contentar-me em ser voyer, mas elas me viram e se afastaram, bruscamente. Senti-me envergonhado por envergonhá-las. Beijar assim, enquanto tantos se matam, pensei: é viver.

Continuei a subir, pensando coisas que não se pareciam muito comigo, pensamento estrangeiro - estrangeiros de dentro de mim! Pela primeira vez eu sentia o som e o cheiro das minhas ruas e, sim, isso era viver!

Reconheci os últimos degraus, aquele beco ia dar na minha rua. Acho que nunca havia reparado que morava no cume de um morro. Acostumei-me a pegar sempre as ruas que dormem lá em cima e jamais descer.

Uma surpresa: nos muros deste último beco, esplendorosos grafites se iluminavam com o sol que já conseguia, por uma manobra de muros, adentrá-los. Obras de artes vivas, dando saída para rua da minha casa!

Dentre os incríveis personagens pintados, um circo se destacava por ter uma caveira mágica na entrada, em seus malabarismos com esferas de luzes! Um palhaço de perfil, meio índio, como primeiro plano, parecia me falar, em seu riso irônico, que o jogo mais difícil e mais simples é viver. Pensei, sim, que morrer é que é perigoso, subvertendo outras tantas veredas.

Contemplei alguns minutos aquelas imagens. Virei à esquerda, e parei-me à frente do portão de casa. Refiz mentalmente todo o trajeto e pensei: esta é a Brasa - minha Brasa!

Corri lá dentro para pegar o celular e tirar essas fotos. Aqui estão mortas, mas no beco, três quadras à frente da minha casa, vivem!, vivem e estão lá para qualquer um ver, isso é, a quem tiver o desprendimento de, como eu nesta manhã, separar cinquenta e três minutos da vida e ir lá fora viver.












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