segunda-feira, 20 de junho de 2011

"SIGILO ETERNO"



Encontrei noutro dia
por acaso
o sentido da vida.

Foi numa terra de garoas
entre sacos
no candor de uma tarde fria:

no canto da rua
um cachorro magro
em duas patas
aquecia


a esperança
uma criança
todo o inverno

enquanto o mistério
se despia dos séculos
num sigilo eterno.


Foto publicada em CMI Brasil

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Letra Envenenada - Edição Junho/11

Caros amigos e leitores,

Já está na praça mais uma edição do jornal "Conteúdo Independente"!

Baixe na íntegra: http://www.4shared.com/document/Z_GZxCI8/jornalci_n15_junho2011.html

Abaixo a crônica publicada na minha coluna "Letra Envenenada" com mais uma charge do Mano Edê!

Axé e uma boa leitura!


"Questões de Gênero"

            O fato é que tudo me surgiu de uma vez só e até então não havia seriamente me deparado com esta questão...

            Sexta-feira, fim de expediente. São Paulo fervilhando em odores de cansaço, carbono, metano e colarinhos de cerveja... Talvez não cheirasse realmente a esta última e a simples vontade de afogar o “leão-da-semana” tenha-me forjado essa ilusão. Certo é que desci do ônibus na ânsia de fugir do trânsito e encontrar tão refrescante iguaria.

            Estava na Vital, fronteira do Jockey Club com a Cidade Universitária (geografia que por si justifica o surgimento desses primeiros personagens) quando presenciei dois travestis-de-programa na calçada, caminhando lentamente à minha frente e discutindo nuances do mercado: 

“A coisa tá feia, pior a cada dia! Vou parar de tomar hormônios...”

            “Nem me fale! E quem quer saber de afeminados? Querem machões e marombados... Faz tempo, amiga, que esses seios não divertem mais ninguém!”

            Achei curiosa a situação. Quis diminuir a passada para escutar um pouco mais, mas o pudor - ou seja lá o que for - me impediu que o fizesse... Travesti precisa “se masculinizar” para atender seu restrito público masculino? Quem entende?...

            Entrei no primeiro boteco que encontrei e me deparei com um pequeno balcão onde uma única mulher - jeans e camiseta, sem qualquer encanto ou delicadeza - entornava a dita gelada enquanto nas mesas vários marmanjos, quietos e apreensivos, acompanhavam a novela numa telona na parede. Só pode ser o último capítulo!, pensei estranhado.

Sentei ao lado da mulher e pedi uma cerveja. Os homens voltados à tevê e a indiferença desta para tudo o que a cercava faziam com que me sentisse profundamente deslocado e só. Tomei toda a garrafa e dei uma pausa para fumar... Na época, era novidade ser crime fumar em lugar fechado, e só o ato de ter que sair para tragar um cigarro parecia me roubar uma fatia considerável de minha milenar virilidade.

Camelôs de CD´s e DVD´s piratas, com rádios e tevês ligadas, tomavam conta do lado de fora do bar. Uma tela em especial me chamou a atenção: um grupo de andróginos seres que, pela distorção da guitarra, julguei tocarem rock, apresentavam-se com ursinhos na mão, chapinha nos cabelos e coraçãozinhos virtuais piscando atrás do palco... Fiz uma oração mental em memória dos ossos e do apertado túmulo de Jimi Hendrix e voltei ao bar, cabisbaixo.

A novela insistia em não terminar, já marejando alguns olhos por ali... A mulher permanecia lá, mandando ver no caneco! Só tinha uma alternativa. Aproximei-me, um pouco sem jeito, e questionei se ela torcia para o São Paulo. Disse-me, incisiva, batendo firmemente a palma da mão no balcão, que “torcia pra time de macho!”.

Gritei ao garçom: “manda mais duas!”. Ninguém ofenderia assim o Tricolor sem me comprovar ter tirado algum passaporte nos últimos dez anos...     





segunda-feira, 6 de junho de 2011

Prefácio do "SFM", por Mônica Simas


            "Mundo, mundos, um modo de não existir"

            A poesia nunca foi uma substância identificável por mais que a busca de uma justa definição tenha gerado, ao longo dos séculos, um processo ativo e intenso na vasta rede das humanidades. Também não é o caso de reconhecer que o fracasso das respostas, que ora são consideradas reducionistas, ora abrangentes demais, à insólita inquirição parecem anular a necessidade de se ir adiante, afinal, uma definição clara serviria a quem? Contribuiria para a realidade de qual mundo? Atento aos versos do "claro enigma" drummondiano, Willian Delarte, neste seu primeiro livro de poesia, carrega a urgência de potência com todo o incognoscível da linguagem ao se defrontar corajosamente com/contra a rarefação de sentido(s) da vida contemporânea.
            O título, Sentimento do Fim do Mundo, evidencia, por um lado, uma linhagem poética que problematiza a escrita como investimento, já que o resultado torna-se desfocado em relação à saúde da lógica econômica, "– Que câncer , que nada!/ era poema raro,/ entalado na garganta ("Poema Entalado"), ou ainda, suspeito diante da força tecnológica — "são dias em que a tevê é uma tortura" ("Outro dia"), " =>  Coração Digital ....................... (please waiting)" ("Inicialização Operacional Homem Digital 1.0"). Neste último exemplo fica claro que a máquina ainda não pode determinar o destino desse ser, o homem, nem mesmo determinar o ritmo, a marcação do tempo da vida. Na poesia de Willian Delarte a vitalidade do substrato cultural ultrapassa a mecânica do mundo, vislumbrada desde antigos eurocentrismos, marcando-se pelo toque do tambor.
            O poeta soma ao binômio de Drummond, "sentimento do mundo", a palavra "fim" para instalar-se no limite de vozes, aquele em que se encontram os "retalhos da linguagem", segundo suas próprias palavras, com uma "generosa e solidária" vontade de liberdade. Essa precipitação do fim, que carrega as perguntas implícitas como – quais os mundos possíveis? É possível habitar o mundo? — constitui uma fenda privilegiada na visão progressiva para que apontam as três partes do livro; "o Novo Mundo", "O Mundo Perdido", "e o Fim (ou Retalhos de Mundo)".
            Talvez, no reverso daquela noção de Höelderlim, Rimbaud e Celan de que a poesia é um modo de existir, possamos admitir uma filiação hipotética de que ela seja um modo interessantemente paradoxal de "não existir", um porvir sem sentido debruçado sobre as grandes pequenas coisas da vida. Nem sempre a poesia precisa de uma construção extravagante, hiper iluminada. Será também uma rememoração simples em que "a rima fácil de amar/ com esganar/ compõe um verso maldito" ("Verso Maldito"). Nem sempre o desejo de "matar", de romper, será mais importante do que o de "morrer-se", o de deixar-se ir, exprimindo-se com o comum do já dito, no eco dos repertórios literários. 
            A palavra poética insurgente, deste que inicia um caminho, sobrevém do choque entre opacidade e transparência dos mundos para sobreviver à maldição (à vaidade, à preguiça, ao pensar mal).  A palavra "performatiza" o rito que sacraliza dessacralizando, em três chamados populares ("Ori (ou Conselho de Vovó Maria)", "Despedida de Nêgo Véio" e "Natal de Iroko"), invocações de cada uma das partes do livro. 
            A sua expressão é atraída tanto por aquele evanescente fumo da "Tabacaria", da composição pessoana na voz de Álvaro de Campos, como também pela imaginação de mitologias bizarras, pelas metamorfoses de "aMOR" e "MORte" que vão compondo um "Myself" todo próprio quanto pela desordem dada que desmascara o caos dos dias. Acostumados com as construções imperativas das classificações, efeitos concretistas vão se infiltrando no anti-lirismo dos dias, nas cartas, nas invocações, estendendo os espaços reflexivos do sujeito. E se o mais sublime simbolismo pode se encontrar no intestino — "Simbolismo Concreto" — é porque os subterrâneos da linguagem são férteis a uma boa nutrição poética.
            O "fim" pode ser o limiar da voz em muitos níveis, menos no da ingênua retórica dos profetas de plantão, tão repetitivos, tão óbvios, tão sem memória de outros pressupostos "fins". Ao "fim" liga-se, na nossa cultura, todo o senso comum de um momento especial que é o revelado apocalipse, mas, segundo a boa observação do poeta deste livro, o fim não é um futuro aventado. Ele diz respeito ao tempo presente de um "Mundo que se mundializa/ ferozmente" (Implosão Demográfica) e à nossa consentida indiferenciação frente à torrente de acontecimentos/notícias.
            O fato é que a aparente inutilidade da escrita diante de uma realidade circunstancial e absurda, que empurra-nos à mudez, serve para evidenciar o permanente desejo de ter uma atuação diferente, de ser voz solidária mas própria. São com esses versos brutalmente belos, "Tenho todos os poetas dentro de mim/ e nenhum canta o que sou" ("Sentimento do fim do mundo") que Willian Delarte ultrapassa a reificação de todas as homenagens (im)pondo-se no aqui e agora do mundo já escrito.    
          Delarte inscreve-se no universo literário no fluxo do repertório de uma vastidão de poetas lidos, estudados e amados no curso de Letras e ao longo da sua vida de leitor; também oferece uma flagrante percepção subjetiva/objetiva que pode nos contagiar com outros nexos. Por isso, remeto o leitor ao início, à epígrafe que abre esta obra — "Se eu quisesse, enlouquecia", retirada do texto "Estilo", do poeta português Herberto Hélder. Enquanto nesse texto, o personagem escritor diz não enlouquecer porque tem um estilo construído com a música de Bach e a matemática, apesar de simultaneamente ouvir os gritos loucos das crianças, o "eu" que se vai escrevendo na oferta com o "sentimento do fim do mundo" nos explicita a qualidade alucinada que é tentar resistir ao reino do "terrível normal inabalável" ("Caro Carlos"), ou, de outro modo, à desproteção do hipnótico medo que alguém sente quando decide publicar a sua poesia. Nessa condição, o destino de um livro é tão enigmático quanto um dia claro; a poesia escrita atrairá seus leitores e novos interlocutores e os desafiarão a pensar sobre seus modos de inexistência.

Mônica Simas de Souza
(Professora da Área de Literatura Portuguesa da USP. Publicou o livro "Margens do Destino: Macau e a literatura em língua portuguesa", além de ser coordenadora do "Grupo  Portugal e o Oriente: literaturas, línguas e culturas")

           

Trajetória "SFM"

Caros amigos e leitores,

O meu livro de poesia "Sentimento do Fim do Mundo" será lançado em julho pela "Editora Patuá" e, para aumentar ainda mais a expectativa, resolvi contar um pouco a sua trajetória e, na postagem seguinte, divulgar - em primeira mão! - o belo prefácio da professora Mônica Simas (USP).

No ano de 2005, inscrevi o texto "embrião" deste livro na 15ª edição do Projeto Nascente da USP, sendo selecionado entre os cinco finalistas na categoria "texto". Este projeto trata-se de um grande festival de artes direcionado a todos os campus da USP, para alunos, professores e funcionários, e nesta categoria eu também concorria com outros gêneros (romance, conto, biografia e texto jornalístico).

De lá para cá, este projeto poético foi bastante lapidado, novos poemas vieram, outros se foram, mas o "corpo" (forma) e o título, como podem ver, em nada mudaram.




No ano seguinte, fui vencedor do "II festival de Literatura da faculdade de Letras (USP)", tendo 3 contos e cinco poemas publicados no livro do festival (poemas que também compõem o "SFM").

O livro deste festival está disponibilizado na net integralmente. Foram publicados os primeiros, segundos e tereceiros colocados das categorias "conto" e "poesia", mais menções. Confiram no link abaixo!



Em breve, novidades sobre datas e locais em que ocorrerão o lançamento do "SFM".

Axé a todos!


Delarte

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Poema "Niilismo" vence concurso no site de Ulisses Tavares"

Caros leitores,

O poema "Niilismo", dedicado ao meu amigo e "independente" Fábio D´Airam,  foi o vencedor do concurso de maio/2011 do site do poeta Ulisses Tavares.

Futuramente o poema fará parte de uma antologia onde participarão os vencedores de cada mês.

Agradeço ao Ulisses o espaço, a divulgação e o projeto.


 
Axé a todos!


"Niilismo"

“Ao Fábio D´Airam”


O Grande Nada nivelou os homens
fez contagem regressiva das horas
pôs os sonhos num altar
a miséria em holofotes
jogou panos quentes no sentido da vida
canonizando o prazer em sua ubíqua teogonia

O Grande Nada ocupou um trono vazio
contabilizou réquiens
espirros
escarros
e fez dos homens atuários

O Grande Nada humanizou os homens
aniquilou o espiral
promoveu o retorno de si
e bandeirinhas na última volta

O Grande Nada despencou os deuses
tornou santos os poetas
e colou todos no nadir

O Grande Nada se nadificou
nadificou tudo e nada ficou

além do Tudo






DELARTE - OBRAS PUBLICADAS:

SENTIMENTO DO FIM DO MUNDO (poesia)

SENTIMENTO DO FIM DO MUNDO (poesia)
Clique nas imagens e adquira os livros pelo catálogo da Editora Patuá. Também podem ser encontrados nas Livrarias Cultura e Suburbano Convicto (SP).

CRAVOS DA NOITE (contos)

O Alien da Linha Azul (poesia)

O Alien da Linha Azul (poesia)
Aquisições com o autor ou no Bar & Livraria Patuscada