quarta-feira, 20 de abril de 2011

"O Cristo de Caeiro"

Amigos,

Aproveitando a Paixão de Cristo que se aproxima, queria deixar aqui essa que é para mim uma das passagens mais belas da literatura mundial, quando em dado momento do "Guardador de Rebanhos", Fernando Pessoa pinta o seu Cristo que lhe vem num sonho...

Assista também a Bethânia o recintando no link: http://www.youtube.com/watch?v=gWI1gs0dJYk

Bom feriadão, boa Páscoa e uma ótima leitura!


O Guardador de Rebanhos
(Fernando Pessoa – Heterônimo “Alberto Caeiro”)

(...)

VIII
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com
flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas…
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou —
«Se é que ele as criou, do que duvido» —
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
(...)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Letra Envenenada - Edição Abril/2011

Leitores e amigos,

Este é o link para baixar na íntegra a edição de Abril do Jornal "Conteúdo Independente": http://www.4shared.com/dir/RdUoZv0B/JORNAL_CI_N_13.html

Abaixo, duas crônicas minhas publicadas nesta edição, cadernos "Literatura-Letra Envenenada" e "Ponto de Vista", sendo a segunda uma adaptação condensada da que postei neste blog em 28/03/11. Confiram!

"Nova Hora-peão"

            Estou pedindo emprego, Doutor, esmola o senhor guarda para Patroa fazer compra no Shopping. Também não sei se o senhor sabe, mas tem um monte de patrões lá fora precisando de alguém como eu que quer trabalhar - trabalho, Doutor, não esmola.

Não é fácil educar dois filhos, levar a Prêta para jantar no sábado, fazer uma poupança e ter algum para ver o Timão jogar. Economia gorda é ver o bucho dos pequenos crescer...

Se subo de “E” para “D”, de “D” para “C”, se levanta um bilhão ou desce dois no orçamento, se pula dez ou cai cinco conto no Mínimo, se o superávit é secundário, primário, pouco nos importa - primeiramente eu quero o máximo que me for justo, querendo ou não o imposto é pago cada vez que respiro, não é verdade?

Não vou ficar aqui relembrando Palmares nem pedir minha cota, presto um serviço, Doutor, e minha hora-peão é uma fração contabilizada aqui, na unha, e por menos, sinto muito, o Doutor não acha mais quem queira - deve ser isso que estão chamando de “Novo Patamar”, não acha?

Não é preciso ter dólar no colchão nem embromar inglês para entender o real valor do dinheiro. Dinheiro vale nada, Doutor, só serve mesmo para pagar as contas... 

Se conto contigo, tudo bem, se não, pego já meu currículo e ganho mundo, pois, não sei se falei, mas os pequenos andam com muitas atividades na escola nova, e cada uma tem seu preço... Não me olhe assim, se os seus nunca pisaram numa pública, por que os meus vão morrer lá?

 Estado bom é o jeito que eles ficam quando voltam do judô; o menor até já escreve no jornalzinho, diz que vai ser escritor!, e, por falar nisso, tem uma dúzia de livros que preciso ler para melhor saber desse tal espírito humano, demasiado humano, que dizem, e livros são caros, Doutor...

A Prêta também já programou uma viagem; é justo que ao menos o nosso continente agente conheça melhor... Orgulho de ser pobre, tenho não... Impossível curvar a cabeça quem já nadou no fundo do poço, e “esperança”, “autoestima elevada”, para mim, desculpe-me Doutor, é dinheiro no bolso!
(Operários - Tarsila do Amaral)


"100 gols na República das Bananas"

Algo de muito emblemático ocorreu no clássico entre São Paulo e Corinthians deste 27 de março de 2011.

Enquanto no Santos, envolto a empresários, o garoto Ganso já começa a negar futebol e já quer, para ontem!, desfilar no “palco luminoso do 1º Mundo” com o brasão de algum time estrangeiro;

enquanto no mesmo dia a Canarinho, ou “Brasilian Time”, retorna à Inglaterra - “amistosamente” - para engordar o cofre da CBF e receber BANANA arremessada ao seu mais promissor talento em campo – repito BANANA!, essa fruta, não por acaso, escrita da mesma maneira nas duas línguas e peculiar ao cardápio dos MACACOS, como gostam de nos chamar por lá;

enquanto se prega o obscurantismo, a partilha da carne e dos ossos dos nossos craques - cada um com seu quadrado de cota!; 

enquanto o futebol tupiniquim nada nas trevas, às braçadas!, o goleiro Rogério Ceni surge numa tarde ensolarada como um ponto de redentora luz, opera três grandes defesas, desenha uma pintura curva no ar, registra seu centésimo gol pelo único clube que o acolheu e crava seu nome na história, na tradição...

Atuação tão grandiosa quanto a que teve, também não por acaso, no título mundial contra os INGLESES, estes mesmos que também um dia tentaram o tirar daqui... Talvez seja mesmo a hora de decidirmos o que queremos realmente: se dar BANANAS ou levá-las, quietos e silenciosos, na cabeça.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Custo e Benefício

Tudo tem um preço.

A corrente no fio,
um saco vazio,
a água no ralo tem seu preço.

Tem seu preço o minuto na tevê,
cinco de prazer
em cima do vaso.

Passeio no parque,
pegada no mar,
toda estrada tem um preço.

Tem um preço o chapéu roto,
focinho de porco,
um pouco de paz.

O braço que abraça,
a luz do apreço,
o que não tem preço
dá-se de graça.

(Casal encontrado na Itália, datado de 6.000 anos)
DELARTE - OBRAS PUBLICADAS:

SENTIMENTO DO FIM DO MUNDO (poesia)

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CRAVOS DA NOITE (contos)

O Alien da Linha Azul (poesia)

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