segunda-feira, 28 de março de 2011

"100 gols na República das Bananas"

Algo aconteceu ontem no clássico entre Corinthians e São Paulo e não foi propriamente a marca 100 precedentes de Rogério ou a quebra do tabu de quatro anos em pleno comemorativo ano do 100tenário alvinegro.

Enquanto Ganso, um dos maiores talentos que surgiu no Brasil se alia com empresários, vira as costas para o time e já começa a fazer corpo-mole e a negar futebol - isto porque,  antes de esquentar as fraldas na camisa do clube, já quer, para ontem!, desfilar no “palco luminoso do 1º Mundo” e babar no ovo de algum brasão estrangeiro;

enquanto no mesmo emblemático dia, a Canarinho, que também podemos chamar de “Brasilian Time”, vai outra vez à Inglaterra engordar mais um pouco o bolso da rica e ditatorial CBF e recebe BANANA arremessada ao seu maior talento em campo – repito BANANA!, essa fruta, não por acaso, escrita da mesma maneira nas duas línguas e peculiar ao cardápio dos MACACOS, como gostam de nos chamar por lá;

enquanto se prega o obscurantismo, o por-baixo-dos-panos, a partilha da carne e dos ossos dos nossos craques - cada um com seu quadrado de cota! ; 

enquanto o mundo do futebol tupiniquim nada nas trevas, às braçadas!, Rogério 100ni surge numa tarde ensolarada como um ponto de redentora luz, opera três grandes defesas (uma no último lance aos 50 minutos do jogo), desenha uma pintura curva no ar, registra seu 100tésimo gol pelo único clube que o acolheu e crava seu nome na história, na tradição...

Foi mais que uma marca, que um número, que uma vitória sobre um rival, foi um culto à Essência, ao Respeito, ao Profissionalismo, ao 100timento impresso no fazer... e, ao fim, a recompensa (não a sorte, o acaso), talvez mesmo o Destino - o destino que ele lapidou com Verdade nas marteladas do dia-a-dia...

Atuação tão grandiosa quanto a que teve, também não por acaso, no título mundial contra os INGLESES, estes mesmos que já tentaram um dia o levar daqui... Talvez seja mesmo a hora de decidirmos o que queremos realmente: se dar BANANAS ou levá-las, quietos e silenciosos, na cabeça.


sábado, 19 de março de 2011

"Inicialização Operacional Homem Digital 1.0"


Þ          Atualização do Corpo Virtual Subatômico Eletromagnetizado......  OK


Þ          Recuperação de Informações Espirituais e Neurológicas.............  OK


Þ          Automatização Cognitiva do Conhecimento Ancestral..................   OK


Þ          Upgrade da Mídia Infracelular Sintética...........................................   OK


Þ           Armazenamento no Disco Neurológico de Dados Infinitos.............  OK


Þ          Verificação do Invólucro Atômico para Aceleração à Velocidade da Luz.......  OK


Þ          Conecção com Cosmos e Cognição Universal Compartilhada........ OK


Þ          Desfragmentação e Atualização da Moral Histórica.........................   OK

Þ          Codificação Real-time do DNA da Alma Virtual.................................  OK


Þ          Scaneamento Total Homem Digital 1.0.............................................  OK


Þ          Coração Digital………...................................….….......… (PLEASE WAIT...)



quarta-feira, 16 de março de 2011

Simbolistas e Malditos


(Pintura de Carlos Schwabe - alemão)


Quero viajar junto com vocês nessa escola e poetas que muito me fascinam. Comecemos pelo jardineiro das “Flores do Mal”...

Charles Baudelaire (francês, 1821-1867) é tido como o “pai da poesia moderna”, entre outros motivos, por ser um precursor na mescla do tom e forma sublimes e “elevadas” com a matéria “baixa” e grotesca.

            (Charles Baudelaire)

Encontramos em sua obra distintos poemas sobre  uma “carniça”, por exemplo. Imagens fúnebres, animais pútridos em versos de rara beleza... 


“Sepultura d'um Poeta Maldito”
(Baudelaire)

Se, em noite horrorosa, escura,
Um cristão, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ruínas d'alguma herdade,

As aranhas hão-de armar
No teu coval suas teias,
E nele irão procriar
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
- Em constantes comoções,

Hás-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladrões.


(Pintura de Odilon Redon  - francês)

... Essa nuance justifica também o rótulo que receberia mais tarde de “Poeta Maldito", juntamente com outros franceses seguidores dessa “maldição”, como Artur Rimbaud, Paul Verlaine e Mallarmé.

Mais que isso, o que se criava então era uma importante “escola” que influenciaria o mundo e a história da poesia, o “Simbolismo”.

Essa poesia, por vezes hermética aos nossos olhos “pós-modernistas”, tem algumas características particulares, tais como a presença marcante da musicalidade, da sugestão, da “subjetividade” em detrimento da “objetividade”, e com isso a busca por rimas raras, deuses embusteiros, e uma temática “transcendentalista” onde o Oriente e seus aromas tomariam contam do imaginário poético e a natureza tornar-se-ia esse templo sutil e metafórico...


Correspondências
(Baudelaire)

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam às vezes sair confusas palavras;
O homem aí passa através das florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.

Como os longos ecos que de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

Há perfumes frescos como carnes de crianças,
Doces como os oboés, verdes como as pradarias,
-E outros corrompidos, ricos e triunfantes,

Tendo a expansão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os transportes do espírito e dos sentidos.

(Pintura de Albert Pinkham Ryder - norte-americano)

... Um mundo de sutilezas, alusões, sujestões, musicalidade e transcendência que chegaria à Portugal numa emblemática figura, esta que levaria ao extremo a vivência dessa poesia e “transcendentalidade” - o mestre “Camilo Pessanha”, tido assim pelo canônico Fernando Pessoa que, por sua vez, sempre buscou, inutilmente, o mínimo do seu reconhecimento.

Mas Pessanha nada buscava além do ópio chinês de Macau (onde era funcionário da colônia portuguesa)... Não queria nem mesmo os louros de sua poesia, publicações ou vida social-literária.

Deixo aqui um poema seu, para mim, uma aterrorizante obra prima, finalizando em grande estilo essa breve e maldita viagem simbolista...


         (Camilo Pessanha)

Poema Final
(Pessanha)

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias -,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.


(Pintura de Frida Kahlo - mexicana)



segunda-feira, 14 de março de 2011

GRÃO MESTRE

                                       
                               (ao mestre e mano Edê)

Na sintética Semente que o protege e o carrega
o embrião contém nele toda e escatológica matéria
imerso no caldo primordial do finito infinito
vai explodir a casca ao acaso de um sopro
vai rebentar todos os lados do tecido sinuoso
do e     s       p          a                ç                          o
com a primeira e atávica raiz de Iroko

- Zaratempo!
(a bonança do ar


só Tempo dará)

Da pivorante parede do universo
Raízes tabulares vão surgir
em asteróides, grãos, planetas
meteoros, sóis, cometas
sugando no fungo do Cosmos
o que lapidam seiva bruta

- Zaratempo!
(a ampulheta da lua
sorve a Terra nua)

Medra medra primitivo Tronco
expande à velocidade da procura da luz
vai compor o eterno móvel da rocha
toda rede do poema lançada ao mar
páginas páginas páginas brancas
carbono, carboidrato, celulose
a vida

- Zaratempo!
(o que a morte corrói
só Tempo constrói)

Galhos Ramos Galhos
bactérias, protozoários
biojogo de elementos
bionaipes do baralho
de organismos e excrementos
na redoma véu-de-esfera
deusa louca Atmosfera

- Zaratempo!
(o Orfeu da memória

compõe a História)

Cem mil folhas no pé
e outras mil duzentas no chão
com a luz incolor da fé
regam o verde-esperança na mão
a névoa esconde onírica floresta:
homem-réptil, pássaro, peixe, avião
mimese, submarino, fotossíntese, evolução

- Zaratempo!
(o caule do mal
é retorno espiral)

Falo e vulva ornamentada
a Flor seduz o corpo do Nada
refecunda o caosmiséria
suicídio, a dor, a guerra
e tudo o que Homem reverte em tristeza
é sexo, fome, gula e prazer
deleite voyer de sua beleza

- Zaratempo!
(em riste o ponteiro
que parte-me inteiro)

O Fruto carrega consigo o sabor das estrelas
o útero se revigora com a vida que zela
Folhas, Tronco, Galhos se condensam
entrelaçadas Flores, Raízes se retraem
no embrião que morrera e nascera a pouco
como Árvore frondosa, Deus e Tempo -
semente explodida no sonho de Iroko

- Zaratempo!
(reprincípio do fim,
arquiteto de mim)


                                                         



quinta-feira, 10 de março de 2011

Letra Envenenada - Março/2011

Caros leitores,

Nesse mês de março iniciei minha coluna mensal "Letra Envenenada" no Jornal "Conteúdo Independente", distribuído nas Cidades de Cotia, Vargem Grande Paulista e região.

Publicarei sempre contos, crônicas ou poesias de temática crítica - social, cultural e política - seguindo assim a demanda do jornal e de seu público.

Nesse link vocês poderão baixar em pdf o jornal na íntegra: http://www.4shared.com/dir/qk9H1UDS/sharing.html

Abaixo o texto publicado na minha coluna desse mês. Axé a todos e uma boa leitura!


"CARTEIRADA"


            Um notório político do exótico Carnival´s Country, também conhecido como “Terra Brasilis”, chega ao céu subitamente após um impetuoso desastre com seu jato particular. De cara, uma fila astronômica lhe surge nos olhos ainda embaçados.
O engomado Senador mirou ao redor e percebeu que todo o horizonte era preenchido por esta fila que, em forma de caracol, tinha em seu centro a saída ou entrada para algum recinto. Somente quando viu que, imersos nas nuvens, os pés inchados pareciam flutuar, foi que a ficha caiu, melhor, rebateu na caixa do cérebro até o convencer de que seu vôo não chegaria tão cedo às Ilhas Cayman, paraíso onde um ilustre amigo banqueiro o esperava para costumeiras transações.
            Empurrando todos, foi se aproximando do centro do caracol até encontrar um senhor bastante alto, barbudo e grisalho que, ao seu ver, era o porteiro ou guardião daquela vertical porta dourada, incrivelmente presa a nada. Antes de falar qualquer coisa, empunhou um cartão e o esfregou na cara do barbudo.
            - Por favor, dirija-se ao fim da fila - disse o Porteiro numa voz grave e serena.
            - Escuta aqui, nunca ouviu falar em “Cartão Diplomático”? Desculpe-me, mas não tenho tempo a perder.
            - Tempo? Bem vindo à eternidade, filho.
            - Filho? Piada, né?...  Posso passar ou não?
            - Já disse, dirija-se ao fim da fila.
            Inconformado com tão constrangedora situação - algo que jamais passaria em vida - o Senador mordeu os lábios, contou até três, levantou a cabeça e, estufando o peito, coagiu com veemência.
            - Escuta aqui, você sabe com quem está falando?
            O Guardião lançou-lhe um olhar de profunda indiferença, ao passo que o Senador retirava inúmeros cartões do bolso, classificando-os em voz alta.
            - Está vendo este?, é do clube mais requintado do mundo! Este é de pensionista vitalício do meu Estado! Este, série plus-master-ouro, tem um limite maior que toda riqueza que um dia você poderia acumular!
            O olhar indiferente permanecia estático e parecia atravessar o Senador. Algumas vozes já começavam a fazer coro.
            - Pô, Pedro, tira esse cara logo daí!...
- É isso mesmo, não temos a morte inteira para ficar nessa fila e, olha, lá vem mais gente!...
- Xiii, parece que inundou de vez o país desse sujeito aí...
Gargalharam todos.
Compreendendo de quem se tratava e ainda sentindo que tinha algumas cartas na manga, o Senador não se deu por vencido.
- Então quer dizer que você é o famigerado São Pedro, responsável pelas enchentes que assola o meu país e, pior, renegador de Cristo por três vezes!
Pedro coçou a barba.
- Meu filho, a razão de ainda haver vida no seu planeta são minhas chuvas e, por um acaso, lembra-se de quem edificou a Igreja de Cristo? Vai contentar-se com o fim da fila ou prefere que eu puxe a sua lista e lhe fale quantos projetos “anti-enchentes” você aprovou e o real destino das verbas? Deve ter percebido que seu lugar na fila depende unicamente dos seus atos - “livre arbítrio”, como dizem por aqui.
            Pela primeira vez na vida – ou na morte - o Senador se enrubesceu. Abaixou a cabeça e percebeu a seriedade da situação.
            - Deveria ficar feliz por estar nesta fila, filho; há uma outra, mais abaixo de nós, onde teria certamente teu lugar cativo.
            - Não, esta não, por favor!... Não há mais nada a se fazer? Eu poderia voltar e reaver tudo...
            - Está certo disso? Poderá se vê numa situação diferente da que deixou para trás - “resgate cármico”, como dizem por aqui.
            - Aceito tudo... Tudo, menos essa fila infernal!
Eis que surge à sua frente uma nova porta, desta vez de um elevador com três botões: “Andar de baixo”, “Reencarnar” e “Falar com o chefe”. Pensou em apertar o terceiro, mas o olhar de Pedro dizia “melhor não!”. Apertou o segundo e desceu como um raio...
            Saiu da casca e logo percebeu que não estava sozinho – ao lado, o irmão mais velho ansiava por sua chegada. Pensou em perguntar onde estava, mas o que se ouviu de seu bico foi um piar muito fino, imperceptível. Após longas horas, tornou a piar, dessa vez de fome, muita fome... A mãe, enorme e emplumada, finalmente chega e lança ao ninho uma vitela putrefata. Enojado, virou o bico e, também, não poderia aceitar ter uma mãe assim, de cor tão temperada... Na mente, as reminiscências de um baby-beef de nobres vacas holandesas – dessas que tomam cerveja e ouvem Choppin a vida inteira – grelhado no alho e na manteiga, diziam-no que não, que jamais comeria essa carne estragada! Quando a mãe retornou à busca de mais alimento, desolado e com muita raiva, bicou o irmão. Notou que havia, ao menos, ganhado um bico bastante afiado. Gostou muito do cheiro de sangue fresco exalado no ar. Bicou, rebicou... Não demorou para que o bucho estivesse cheinho, mas o que gostou mesmo foi do fraterno fígado, suave como caviar, pena que pequeno demais.


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