segunda-feira, 1 de agosto de 2011

"SANTA CECÍLIA"
















Você vai passar de carro
e pelo ar condicionado
não chegará
um átomo de odor da rua.

Mesmo que um indigente
e louco
e perebento
estique o lençol mofado
que lhe cobre o machucado

(na certeza delirante
de que presta um importante
serviço ausente),

e macule o vidro da frente
com sangue coagulado
e verdeadas secreções
de pus com água-ardente,

você não lhe dará o agrado
e sua mão ficará esticada
até o próximo sinal fechado.

Ainda que você se sinta mal
e busque no fundo da alma
uma explicação catártica
para o fato social que você
jamais se responsabilizará

ou encontre uma resposta mística
kármica ou econômica
que lhe convença de que cada um
tem o que busca, paga o que deve,

uma mão estará alçada,
o lençol, embolorado,

e um velho estará morrendo
como criança que já vai nascendo
louca,
indigente,
remelenta,
no corredor da Santa Casa
sem qualquer misericórdia.



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