terça-feira, 5 de julho de 2011

Letra Envenenada - Edição Julho/11


Amigos,

A edição de julho do jornal "Conteúdo Independente" já está na praça de Cotia, Vargem Grande Paulista e região, com layout novo e cheio de novidades!

Ler:




Baixarhttp://www.4shared.com/document/886iawdw/jornalcin16julho2011.html

Abaixo o conto publicado na minha coluna "Letra Envenenada", dedicado à campanha "Viver Sem Medo" (informações da campanha na parte inferior deste blog. Não deixe de divulgá-la e assinar a petição!)

Participe da promoção do meu livro, elaborada pelo jornal, ao fim deste post!



"O JOGO"

Como tudo começou? Ora, não é tão simples saber. Nunca tive síndrome alguma, e essa história de jogar com o próprio destino talvez fosse até um pouco de coragem. Só que agora estou aqui, todo cadeado, e nem insista em me puxar, não dá: meus pés criaram raízes e abraçam, por baixo, todo o asfalto. É o destino. Vejo agora sua cara leitosa que vivia encoberta por um velho e despedaçado capuz. Capuz negro.  Tirei-o, é isso o que me paralisa: não há cara, não há nada! Quando pequeno, o jogo era simples e inocente, foi surgindo da espontânea magia que sempre me incitou a vida. Acho que é  isso: mágica!, uma vontade inexplicável de encantar o futuro, servia para ganhar presentes no natal ou boas notas em Matemática. Como era? Ah, até que divertido! Eu mirava, por exemplo, um azulejo losangolar específico na calçada, dessas em que se alternam aleatoriamente sempre um preto e um branco, e pensava profundamente “se eu pisar só nos brancos até o primeiro semáforo...”, e a essa condicional seguia-se sempre uma graça que alcançaria. Se triscasse na cor errada, tratava de mudar rapidamente toda a regra do jogo, o que fazia minha mãe se irritar e quase sempre me dar uns safanões. Eu não ligava, largava sua mão e iniciava meus insanos malabarismos, isso porque, ao invés de só pisar nos losangos brancos – de acordo com a nova regra surgida do erro e do acaso –, deveria alcançar um negro a cada dez brancos, por exemplo, não importando onde esse estivesse. Coincidência ou não, nunca tais graças deixaram de se realizar. Minha mulher, por exemplo, foi consagrada assim: “se conseguir pisar, somente com o pé direito, nos traços que separam um ladrilho do outro, ela me amará!”. Percorri dois quarteirões num pé só e no final do ano já estávamos casados e felizes para sempre, para todo-o-sempre que se suspende exatamente agora! Não, não me puxem: vejo tudo embranquecer, a garganta secar, a mão suar, os dedos tremelicarem com os dentes, e sinto que a qualquer momento tornar-me-ei uma pálida e ignara pedra. Por que agora? Há de ser o destino... Vinha tranquilo, distraído, contando os passos para que chegasse à porta do banco numa passada de número ímpar - coisa que encadearia uma série de notícias abençoadas no meu trabalho - quando me deparei com esta encruzilhada. Aguardei o sinal verde e me pus a atravessá-la tranquilamente na faixa de pedestre, ainda a contar os passos, quando um pensamento me surgiu: “se pisar somente nas listras, terei uma vida intensa e duradoura!”... Horror, parem com as buzinas! Há uma coruja me atravessando, pousada no semáforo, piando, rindo... Não consigo mudar o jogo, só saio daqui morto, aliás, estou morrendo desde o momento em que um segundo pensamento me veio: “se pisar entre as listras, morrerei”. Não posso mover um mísero músculo sequer, é chegada a hora: o destino me sorri largamente entre as listras e não posso simplesmente colá-las sob os pés.




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