quarta-feira, 16 de março de 2011

Simbolistas e Malditos


(Pintura de Carlos Schwabe - alemão)


Quero viajar junto com vocês nessa escola e poetas que muito me fascinam. Comecemos pelo jardineiro das “Flores do Mal”...

Charles Baudelaire (francês, 1821-1867) é tido como o “pai da poesia moderna”, entre outros motivos, por ser um precursor na mescla do tom e forma sublimes e “elevadas” com a matéria “baixa” e grotesca.

            (Charles Baudelaire)

Encontramos em sua obra distintos poemas sobre  uma “carniça”, por exemplo. Imagens fúnebres, animais pútridos em versos de rara beleza... 


“Sepultura d'um Poeta Maldito”
(Baudelaire)

Se, em noite horrorosa, escura,
Um cristão, por piedade,
te conceder sepultura
Nas ruínas d'alguma herdade,

As aranhas hão-de armar
No teu coval suas teias,
E nele irão procriar
Víboras e centopeias.

E sobre a tua cabeça,
A impedi-la que adormeça.
- Em constantes comoções,

Hás-de ouvir lobos uivar,
Das bruxas o praguejar,
E os conluios dos ladrões.


(Pintura de Odilon Redon  - francês)

... Essa nuance justifica também o rótulo que receberia mais tarde de “Poeta Maldito", juntamente com outros franceses seguidores dessa “maldição”, como Artur Rimbaud, Paul Verlaine e Mallarmé.

Mais que isso, o que se criava então era uma importante “escola” que influenciaria o mundo e a história da poesia, o “Simbolismo”.

Essa poesia, por vezes hermética aos nossos olhos “pós-modernistas”, tem algumas características particulares, tais como a presença marcante da musicalidade, da sugestão, da “subjetividade” em detrimento da “objetividade”, e com isso a busca por rimas raras, deuses embusteiros, e uma temática “transcendentalista” onde o Oriente e seus aromas tomariam contam do imaginário poético e a natureza tornar-se-ia esse templo sutil e metafórico...


Correspondências
(Baudelaire)

A natureza é um templo onde vivos pilares
Deixam às vezes sair confusas palavras;
O homem aí passa através das florestas de símbolos
Que o observam com olhares familiares.

Como os longos ecos que de longe se confundem
Numa tenebrosa e profunda unidade,
Vasta como a noite e a claridade,
Os perfumes, as cores e os sons se correspondem.

Há perfumes frescos como carnes de crianças,
Doces como os oboés, verdes como as pradarias,
-E outros corrompidos, ricos e triunfantes,

Tendo a expansão das coisas infinitas,
Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso,
Que cantam os transportes do espírito e dos sentidos.

(Pintura de Albert Pinkham Ryder - norte-americano)

... Um mundo de sutilezas, alusões, sujestões, musicalidade e transcendência que chegaria à Portugal numa emblemática figura, esta que levaria ao extremo a vivência dessa poesia e “transcendentalidade” - o mestre “Camilo Pessanha”, tido assim pelo canônico Fernando Pessoa que, por sua vez, sempre buscou, inutilmente, o mínimo do seu reconhecimento.

Mas Pessanha nada buscava além do ópio chinês de Macau (onde era funcionário da colônia portuguesa)... Não queria nem mesmo os louros de sua poesia, publicações ou vida social-literária.

Deixo aqui um poema seu, para mim, uma aterrorizante obra prima, finalizando em grande estilo essa breve e maldita viagem simbolista...


         (Camilo Pessanha)

Poema Final
(Pessanha)

Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas,
- Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptise,
Represados clarões, cromáticas vesânias -,
No limbo onde esperais a luz que vos batize,

As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis.

Abortos que pendeis as frontes cor de cidra,
Tão graves de cismar, nos bocais dos museus,
E escutando o correr da água na clepsidra,
Vagamente sorris, resignados e ateus,

Cessai de cogitar, o abismo não sondeis.

Gemebundo arrulhar dos sonhos não sonhados,
Que toda a noite errais, doces almas penando,
E as asas lacerais na aresta dos telhados,
E no vento expirais em um queixume brando,

Adormecei. Não suspireis. Não respireis.


(Pintura de Frida Kahlo - mexicana)



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